terça-feira, 7 de março de 2017

O geladinho de chocolate

      Clarice disse "escrever é uma maldição" e de fato eu concordo com ela. Ser escritor é uma maldição em certo ponto. Não andamos tranquilos na rua ou no ônibus, estamos sempre analisando situações cotidianas sem nenhum significado aparente, ouvimos as conversas corriqueiras das pessoas, atribuímos significados a tudo, usamos metáforas e refletimos sobre coisas banais.
         Outro dia notei que caí na rotina de visitar o CESA (um dos centros da minha faculdade), durante o intervalo das aulas, com o único propósito de comprar o geladinho de chocolate vendido por uma senhora que costuma estar lá nesse horário. Não parece algo demais, mas a esse "banal" eu fiz uma metáfora de vida... Algo que eu costumo fazer, principalmente metaforizar coisas comparando com a área amorosa da vida, da qual eu não fiz nada além de fracassar. Talvez seja esse o motivo de tantas metáforas.
           Como algo tão banal quanto um simples geladinho - que tem nomes diferentes em cada região desse vasto Brasil, como sacolé, dindin e, o que eu mais acho engraçadinho: juju - pode significar? Pois eu irei tentar explicar. Atribuí a três sabores um sentimento específico. O de chocolate, tão procurado por mim, o meu favorito, remete-se a pessoa que mais se está envolvida emocionalmente em questões amorosas, sendo assim, o mais forte dos sentimentos, mas que, porém, não está sempre disponível (houve vezes que fui comprar o tal sabor de chocolate e ele não tinha). O de danoninho seria o que popularmente chama-se "crush", era o sabor que eu escolhia quando o meu favorito de chocolate havia acabado e que, traduzindo para o sentimentalismo, não é uma pessoa que se morra de amores, mas é aquela que se tem um certo apego.O último sabor, que remete-se a um nível baixo de sentimento, é o de abacate, seria o ser que se conhece nessa vida de boemia, troca um beijo ou dois e, com muita sorte, algumas mensagens, mas nada tão significativo.
         Talvez não seja necessário dizer, mas mesmo assim o faço: a falta que o tal geladinho de chocolate me faz é absurda, é dolorosa, é a razão das noites mal dormidas e dos textos com marca de lágrimas. Mas Clarice também disse que escrever é uma maldição que salva, ela com os motivos dela e eu com os meus que permito-me humildemente explicitar. Escrever é uma maldição que salva pra mim já que me faz refletir sobre certas coisas e, através dessas reflexões, pude chegar a uma verdade que eu, por tempos, preferia não ver: não se trata como geladinho de chocolate quem te trata como mero danonino ou, com muito mais desprezo, como abacate
         

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